Outros tempos!
Andei pensando tanto ultimamente em como viver nos anos 80 e 90 era sublime — a ponto de nem conseguirmos imaginar o futuro confuso dos dias atuais. Vivemos em uma competitividade exacerbada, com concorrência para quase tudo, loucura por desejos insignificantes e tantos outros fatores que destruíram a saúde e a paz das pessoas.
A propaganda do corpo ideal, o coach que promete te moldar em pouco tempo para um resultado ilusório, não passam de espetáculo para dar visibilidade a si mesmo. Aos adeptos que apostam ali suas últimas migalhas, resta a decepção, para não dizer o fracasso.
Essas infinitas promessas e essa concorrência desproporcional alimentam-se de falácias que nada têm a ver com a singularidade de quem acorda cedo e trabalha incansavelmente pelo pão de cada dia, pelo salário suado para alimentar a família. A busca por sobreviver de forma digna acaba sufocada por ilusões nas quais jamais irei acreditar.
Nas décadas passadas, a certeza que se tinha não vinha de metas de performance ou do enriquecimento rápido; o caminho para construir algo era o estudo — e isso se perdeu. Meu lamento é pela fragilidade escondida atrás dos vendedores de sonhos. Lamento porque sei que a verdade e o esforço natural, feito sem prejudicar ninguém, muitas vezes acabam atropelados pelas ironias do destino.
Sem ser meramente saudosista, confesso: viver nessa disputa por tudo, concorrendo com quem não tem autenticidade e apenas surfa ondas de sucesso vazio, é exaustivo. Eu prefiro me afastar disso e me perguntar como resgatar a essência daqueles tempos, antes que essa modernidade desmedida modifique por completo o que nos resta de humano.
E, por fim, para selar essa transformação, inserimos a inteligência artificial para gerir as nossas angústias. Um mecanismo sem sentimentos, aceito sob o pretexto de poupar tempo, mas que passa a ditar o que é bom ou ruim. No fim das contas, quem é o verdadeiro culpado por esse cenário que roubou a naturalidade e a originalidade das pessoas, entregando-nos a um futuro tão árido e complexo?

